IA nas eleições 2026: o que o TSE permite e o que o primeiro turno mostrou

A inteligência artificial virou rotina na comunicação política de 2026: as regras ficaram mais claras, os deepfakes circularam em volume e a falta de rótulo foi o maior problema.
A IA nas eleições deixou de ser uma hipótese para virar parte do dia a dia das campanhas. Em 2026, candidatos usaram ferramentas de inteligência artificial para produzir vídeos, áudios e peças gráficas, e eleitores comuns fizeram o mesmo para apoiar, atacar ou ironizar quem estava na disputa.
Para lidar com isso, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atualizou as regras de propaganda e firmou um entendimento sobre o que conta como deepfake proibido. Com o primeiro turno encerrado em 4 de outubro e o segundo marcado para 25 de outubro, já dá para olhar os números e entender o que funcionou, o que escapou das regras e o que essa experiência ensina para quem faz comunicação de marca.
O que você vai ver neste post:
- O que as regras do TSE permitem e proíbem no uso de IA em 2026;
- Como o TSE definiu quando um deepfake é ilegal;
- O que os dados do primeiro turno mostram sobre deepfakes e rótulos;
- O que marcas e times de marketing podem aprender com as eleições.
Quais são as regras do TSE para IA nas eleições 2026?
As primeiras regras específicas sobre inteligência artificial em campanhas valeram nas eleições municipais de 2024, com a Resolução TSE 23.732/2024. Ela criou a obrigação de identificar conteúdo sintético e proibiu chatbots e avatares que simulam conversas com candidatos ou outras pessoas reais.
Para 2026, o TSE consolidou e ampliou esse conjunto com a Resolução 23.755, de março de 2026, que altera a Resolução 23.610/2019, a norma geral de propaganda eleitoral. Segundo o resumo das regras publicado pelo Migalhas, os pontos principais são estes:
O que é permitido
- Usar IA para melhorar a qualidade de imagem e áudio;
- Criar elementos gráficos da identidade visual da campanha, como vinhetas e logos;
- Aplicar recursos de marketing habituais que não alterem de forma substancial o conteúdo.
O que é proibido
- Conteúdo criado ou alterado por IA para espalhar fatos sabidamente falsos ou tirados de contexto;
- Deepfakes usados para prejudicar ou favorecer candidaturas;
- Sistemas de IA que ranqueiem, recomendem ou priorizem candidatos, partidos ou campanhas, mesmo quando o usuário pede;
- Publicar, republicar ou impulsionar novos conteúdos sintéticos com imagem ou voz de candidatos entre 72 horas antes e 24 horas depois da votação.
Como o rótulo de IA deve aparecer
Toda propaganda criada ou alterada de forma relevante por IA precisa informar esse uso de maneira explícita. O formato do aviso depende da mídia:
| Formato | Como identificar o uso de IA |
|---|---|
| Áudio | Aviso no início da peça |
| Imagem | Marca d'água e audiodescrição |
| Vídeo | Aviso compatível com o formato do vídeo |
| Material impresso | Aviso em cada página ou face |
As plataformas digitais também têm deveres: manter planos de conformidade, oferecer canais de denúncia para partidos e candidaturas, remover conteúdo ilícito e suspender impulsionamento e monetização de publicações irregulares. Quem descumpre as regras pode ter o conteúdo removido e, nos casos mais graves, responder por abuso de poder, com risco de cassação do registro ou do mandato.
Quando um deepfake é ilegal, segundo o TSE?
O ponto mais debatido do ano foi a definição de deepfake. Em 1º de setembro de 2026, o TSE julgou o caso de um vídeo feito com IA em que um avatar de Jair Bolsonaro pedia apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, exibido na convenção do PL. Por 4 votos a 3, o tribunal entendeu que o vídeo não era ilegal, conforme a cobertura do julgamento feita pelo Conjur.
A tese fixada diz que a proibição de deepfake prevista na resolução pressupõe que o conteúdo seja caracterizado como propaganda eleitoral. Na prática, dois critérios precisam aparecer juntos:
- Realismo: o conteúdo sintético precisa ter verossimilhança suficiente para simular a imagem, a voz ou a manifestação de uma pessoa;
- Propaganda eleitoral: o material precisa funcionar como propaganda, e não apenas como um ato interno de partido, por exemplo.
A votação apertada mostra que o tema ainda está em construção. Os três ministros vencidos defenderam que a proibição também deveria valer para atos partidários da pré-campanha, mesmo sem a caracterização formal de propaganda.
O que o primeiro turno mostrou sobre deepfakes?
O retrato mais completo do período veio do projeto VigIA, da agência de checagem Lupa em parceria com o Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai) da Unicamp. Os dados foram divulgados pela Agência Brasil e pelo Terra. Entre 16 de agosto e 28 de setembro, o monitoramento encontrou:
- 1.941 conteúdos suspeitos coletados nas redes;
- 920 com uso de IA confirmado, quase um por hora;
- 554 deepfakes, o equivalente a 60% do conteúdo feito com IA;
- Só 371 das 920 peças traziam o rótulo obrigatório, cerca de 40%;
- Entre as 549 sem rótulo, 75 foram publicadas por perfis de candidatos ou partidos.
Dois dados ajudam a entender o desafio. Primeiro, a origem: dos 554 deepfakes, apenas 29 saíram de perfis de candidatos ou partidos. Os outros 525 vieram de usuários comuns e contas anônimas, que ficam mais longe do alcance da Justiça Eleitoral. Segundo, o objetivo: 45% do conteúdo com IA promovia candidaturas e 25% atacava candidatos ou outras pessoas. Lula e Flávio Bolsonaro foram os nomes mais presentes, com 379 e 190 aparições, respectivamente.
Para Cristina Tardáguila, fundadora da Lupa, encontrar quase um conteúdo com IA por hora, a maioria sem sinalização, dá a dimensão do desafio. A pesquisadora Beatriz Farrugia, do VigIA, apontou que barrar deepfakes exige que a Justiça trabalhe junto com as plataformas para identificar quem publica, já que a maior parte vem de contas anônimas.
Os deepfakes mudam o resultado de uma eleição?
A experiência internacional sugere cautela antes de conclusões apressadas. Em 2024, ano com eleições em dezenas de países, o Alan Turing Institute, do Reino Unido, analisou as eleições britânicas, europeias e francesas e encontrou apenas 27 conteúdos de IA que viralizaram. A conclusão, relatada pelo Gizmodo, foi que não havia evidência de impacto relevante nos resultados: a maior parte da exposição se concentrou em pessoas que já concordavam com a mensagem.
Isso não quer dizer que o risco seja pequeno. O mesmo estudo destacou efeitos que vão além do voto:
- Erosão da confiança: quando tudo pode ser falso, as pessoas passam a duvidar também do que é verdadeiro;
- Reforço de crenças: um deepfake realista pode fortalecer uma ideia falsa mesmo quando o público sabe que o conteúdo é sintético;
- Ataques pessoais: mulheres na política foram alvo de deepfakes pornográficos, com dano direto às vítimas.
O caso brasileiro de 2026 aponta na mesma direção. O volume foi grande, mas o problema mais visível foi a falta de transparência: a maior parte do conteúdo circulou sem avisar ao eleitor que tinha sido feito com IA.
O que marcas podem aprender com a IA nas eleições?
Campanhas eleitorais são um laboratório extremo de comunicação: muita pressão, pouco tempo e público dividido. O que acontece nelas costuma chegar ao marketing das empresas logo depois. Quatro lições se aplicam a qualquer marca.
1. Transparência vira padrão de mercado
A exigência de rótulo nasceu na política, mas a expectativa do público vale para todos. Se a sua marca usa IA para gerar imagens, vozes ou pessoas, deixe isso claro. Esconder o uso é o caminho mais rápido para perder credibilidade quando alguém descobre.
2. Sua marca também pode ser alvo de deepfake
A mesma tecnologia que imita candidatos imita porta-vozes, executivos e garotos-propaganda. Vale monitorar menções à marca, definir quem responde e ter um roteiro pronto para desmentir conteúdo falso rapidamente. O nosso guia de gestão de crise nas redes sociais mostra como estruturar essa resposta.
3. Assistentes de IA estão sob regra
O TSE proibiu que sistemas de IA recomendem candidatos. É um sinal de que as respostas de assistentes como ChatGPT, Gemini e Copilot passaram a ser vistas como algo que influencia decisões. Para as marcas, isso reforça a importância de entender como esses sistemas citam empresas e produtos, o campo do GEO e da busca generativa.
4. IA acelera, mas estratégia continua humana
As campanhas que usaram IA dentro das regras ganharam velocidade na produção. As que usaram sem critério criaram passivos jurídicos e de reputação. Com as marcas é igual: a ferramenta multiplica o que já existe, seja um bom planejamento, seja um erro.
IA nas eleições: regras claras, desafio de transparência
As eleições de 2026 mostraram que a inteligência artificial já faz parte da comunicação política e que regras bem definidas ajudam, mas não resolvem tudo sozinhas. O TSE deixou claro o que é permitido, o primeiro turno mostrou que o volume de deepfakes é alto e o segundo turno, em 25 de outubro, volta a testar a janela de proibição de 72 horas antes da votação. O maior aprendizado, para eleitores e para marcas, é que transparência sobre o uso de IA deixou de ser opcional.
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Referências
- IA nas campanhas eleitorais 2026: veja o que TSE autoriza ou proíbe, Migalhas, 2026
- Por 4 votos a 3, TSE valida uso de vídeo de Bolsonaro feito com IA, Consultor Jurídico (Conjur), 2 de setembro de 2026
- Mesmo proibidos, deepfakes tomam conta das redes antes da eleição, Agência Brasil, outubro de 2026
- Deepfakes lideram uso irregular de inteligência artificial nas eleições de 2026, Terra, outubro de 2026
- Propaganda eleitoral: o que pode e o que não pode a partir da nova resolução do TSE, Consultor Jurídico (Conjur), 21 de março de 2024
- Deepfakes Barely Impacted 2024 Elections Because They Aren't Very Good, Research Finds, Gizmodo, 2024


